quarta-feira, 7 de setembro de 2016

VOCÊ NÃO SABE, MENINA

Você não sabe, menina
mas certas vezes, a noite
não é totalmente um açoite.
A meia-noite me ensina,
que essas doses cavalares
de saudade que eu sinto
não se resolvem com absinto 
nem com via-sacra por bares
da cidade. Sabe amor,
a madrugada ensinou 
superar distância e dor.
Mas confesso-lhe, meu bem:
esses ensinamentos
não aliviam essa angústia
de estar longe de você. 


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

HAICAI JAMAIS

Temer ratos
jamais temer
ratos imundos
ratos jamais
temer ratos
como temer
jamais temer.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SEUS OLHOS TRANSBORDAM SENTIMENTO

seus olhos transbordam sentimento
e derramam em meu corpo um puro
e selvagem regozijo isento
de frias culpas e medos duros.

Sou perseguido incessantemente
por dúvidas que me corroem a alma.
Meu coração escrachadamente
imaturo remói um velho trauma.

Pupilas dilatadas para que eu
veja, em pesadelo rotineiro,
repousar em seu corpo traiçoeiro

outro torso que não é o meu.
Esses são velhos versos roídos
de um tolo poeta entristecido.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

UM-DOIS

Minhas rimas fazem tabela
à la Romário e Bebeto.
Todo novo verso é um gol de trivela. 

domingo, 10 de julho de 2016

MAIS DO MESMO

Tempestade torpe em minha cabeça
cheia de neuras confortavelmente
seguras. Nada que eu não mereça.
O que dizer do passado? Semente
de dúvidas indigestas e irracionais,
volta e meia vítima de ações passionais.
Meu desejo paira nessa confusão
travessa, que transforma a paixão
em agonizante melancolia.
Esse ódio se faz, desfaz e refaz
as minhas angústias em poesia.
Sei bem: não ha motivos para tal,
veja bem, amor. meus sentidos não
pedem razão. Nesse mar sentimental
onde desaguam cachaça e agonia,
iço velas rumo ao desconhecido
e pelo ciúmes hipócrita sou
                                             movido.
Enfim contido, pelos simples e
aconchegante, túmulo-amigo.

sábado, 2 de julho de 2016

CONFIDÊNCIA

Fui questionado noutro dia
sobre a essência da poesia.
Em um lapso de inconsciência
respondi com rara inocência:

É a poesia a arte da mentira.
Arma translouca que atira
sem rumo ou alvo ou razão.
Poesia é palavra, não emoção.

Se existe beleza nisso,
não sou capaz de descobrir.
Meus versos parecem fugir,

E ao fim prendo-os no papel
e esqueço-me de esquecer que
poesia é o fazer, não o querer. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

BILHETE

Saiba que repousa em mim
insana repulsa sem fim.
Sou o que sou e não quero saber
das qualidades do meu ser.

Arranho e arranco vísceras:
minhas lembranças míseras,
desgraçadamente vividas
sabiamente vendidas.

A nostalgia rasga a alma
transforma ódio em poesia
e razão em melancolia.

Que essa louca tara de amor
seja o caminho para o fim.
Sim. O meu fim. Assim. Enfim!

domingo, 26 de junho de 2016

ACEITAÇÃO

Não quero nada além do seu prazer.
Embora que seu gozo noutro corpo
é obra fúnebre para o meu ser.
Aceito e trago e tremo e usurpo,

pesadelando noite a dentro
com olhar de bicho surrado.
Seu gemido em meu ouvido é o epicentro
deste terremoto desgraçado.

Um culpado? Talvez o destino
que fez crescer num desatino
sua volúpia, desejos e amores.

Me restam duras limitações
e adiante terríveis visões:
Você. Alguém. Seu prazer. Meu sofrer.


terça-feira, 31 de maio de 2016

DIÁRIO URBANO

Sangro palavras sofridas
embebidas em vinho e amor
e prazer. A noite em seu fervor
é covil de almas perdidas.

A mendigagem aflita
divide o último gole,
engana a fome da prole.
me sacio com a escrita.

A cidade imunda de razão
me arranca do peito a mais
melancólica emoção.

A manhã febril rouba os
sonhos dos desiludidos.
Nasceu o dia. Estamos fodidos. 

sábado, 28 de maio de 2016

"O RINOCERONTE", Eugene Ionesco

"(...)
BÉRENGER
Eu não gosto muito de álcool. E no entanto, se não bebo, não me sinto bem. É como se eu tivesse medo... Então bebo para não ter mais medo.

JEAN
Medo de quê?

BÉRENGER
Não sei bem como explicar. São umas angústias difíceis de definir. Não me sinto à vontade na vida... no meio das pessoas... então, recorro ao álcool. E isso me acalma, me descontrai, me faz esquecer.

JEAN
Você se esquece de você mesmo!

BÉRENGER
Estou cansado. Há muitos anos que me sinto cansado. Custa-me a suportar o peso do meu próprio corpo.

JEAN
Isso é neurastenia alcoólica, é a melancolia do beberrão...

BÉRENGER (continuando)
Eu sinto a cada instante o meu corpo, como se fosse de chumbo, ou como se carregasse um outro homem nas costas. Ainda não me habituei comigo mesmo. Eu não sei se eu sou eu. Mas basta beber um pouco, o fardo desaparece e eu me reconheço, eu me torno eu mesmo.
(...)"
(IONESCO, Eugène. O RINOCERONTE. p. 39.1976. São Paulo)

domingo, 15 de maio de 2016

REVELAÇÕES

Outro suor em seu corpo,
pesadelo indigesto esse meu.
Nem a poesia e a lira de Orfeu,
impedem-me de querer estar morto.

O passado trouxe a mim infeliz recado.
Roo sem dó as unhas recém roídas,
imaginando por quantas despedidas
seu sexo fora arrebatado.

Minhas pedras voam sem direção.
pois nem neste papel maldito
cabem meus lamentos sem razão.

Dance pela vida, meu bem-querer,
como se fosse ela o seu salão de festas.
O seu prazer fortuito, cabe a mim esquecer. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

PELO CORRIMÃO

Pelo corrimão
corre toda mão.
Corre sem regra
a mão negra, bem
como a amarela
escorre, esgoela.
Toda essa gente
socorrem-se no tal
corrimão errante.
Sob essas mãos de bem e mal,
quase sempre fiel,
a bússola aflante
não aponta o final.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

SONETO

Aqueles olhos de saudade
enxergam até o que não existe.
Afugentam-me do que é triste,
libertam qualquer verdade.

Aqueles olhos de bem-querer
são as fortalezas da pureza,
frutos belos da natureza.
Vencem os defeitos do meu ser.

Sou grato a esses olhos de cristal,
por eles combato qualquer mal,
até mesmo meus desamores.

Que esses olhos de amor e tesão
sejam mar para o meu coração,
de águas de intensa calmaria. 

terça-feira, 8 de março de 2016

SONETO DA ROTINA

Não queira saber o que se passa aqui, meu bem,
por vezes meu coração desdenha da razão.
Seus olhos são meus, mas apontam para outro alguém,
não me demoro a perder a alma, o sono e a direção.

Seu passado é sombra escura que me acompanha.
No bar, na rua, até quando você está nua,
sinto-me tomado por essa carga estranha.
Fico angustiado desde o sol até a lua.

Manhã, tarde e noite. Meu amanhã é sempre o mesmo,
vencer esses fantasmas, escolhendo-os a esmo.
Armo minha trincheira enquanto beberico,

sempre ao lado do garçom, aliado fiel.
Mas eu não reclamo do combate, querida,
ciúme e cachaça fazem parte da vida. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

SONETO IRRACIONAL

O passado é comichão que me desfaz a calma
é vício que afunda a mente em pequenas dores.
Caminho cego por suas figuras de horrores,
sinto prazer ao vê-lo desfigurar minha alma.

Essa ânsia de amar causa mágoa, raiva e desamor
e engrandecer o que passou é parte do processo.
Desassossegar o coração é um lúdico excesso,
pesa no peito a razão embriagada de rancor.

Agora já não importa a ausência e a distância,
neste velho coração pulsa o amargo veneno,
pai das inseguranças dos homens, tão sereno.

Sou vítima fácil desse ciúme insensato,
me perdoe Amor, mas seu passado é fardo ingrato.
Findo esse lamento: louco. Raivoso. Sincero. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SONETO DAS LEMBRANÇAS

O nosso tempo se desfez sem culpa, minha amiga
foi tempestade momentânea de amor e sexo
deixou saudades e uma lição: paixão não se mendiga.
Todo pedaço de vidro na rua possui o seu reflexo.

e o velho coração afoga-se nessas loucas rimas
e a cabeça teimosa quer apenas poesia
enquanto uns poetinhas lutam por obras primas,
desejo findar a goteira da melancolia.

Quero beber dessa cachaça imunda, amarga e doente,
como faz um bêbado de sentimento permanente.
Esse vício de tragar a fumaça da saudade,

não apresenta qualquer sintoma há muitos anos.
Talvez algumas ressacas e uns versos sem compromisso,
prazerosamente causados por esse seu feitiço.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

SONETO DA PROMESSA

Certa noite disse a ela: "não sei para onde vamos
mas acho que estou feliz por onde nós estamos"
seus olhos me fitavam com ternura pedinte
e os cabelos perfumaram meu sonho seguinte.

Naquela doce noite pedi aos céus vida eterna,
quis o toque, os seios, as coxas, a boca terna.
Despi aquele corpo com as minhas mãos trêmulas,
sorvei seu quente néctar de doses intrêmulas.

soube enfim o significado do prazer sem fim:
nada de amores com prazo de validade,
o sentimento é sentido em sua mais pura verdade.

E como em um bom samba qualquer do Poetinha,
não soube dizer para onde nós iríamos
senti felicidade por saber onde estávamos.

sábado, 2 de janeiro de 2016

AO MEU SOBRINHO

Seus pequenos ombros suportam tamanha inocência
seus amorosos abraços não sabem o sentido do amor.
Um olhar profundo livre de amarguras e qualquer rancor,
assustado, desperto: um fantasma anuncia a sua ausência.

Entre uma lágrima e outra, o sorriso aberto sem sentido
escancara a pureza sublime desse ser pequenino.
A empatia exala dos bracinhos do nosso menino,
sem esse anjo-guri, exibiríamos esse riso incontido?