sábado, 28 de maio de 2016

"O RINOCERONTE", Eugene Ionesco

"(...)
BÉRENGER
Eu não gosto muito de álcool. E no entanto, se não bebo, não me sinto bem. É como se eu tivesse medo... Então bebo para não ter mais medo.

JEAN
Medo de quê?

BÉRENGER
Não sei bem como explicar. São umas angústias difíceis de definir. Não me sinto à vontade na vida... no meio das pessoas... então, recorro ao álcool. E isso me acalma, me descontrai, me faz esquecer.

JEAN
Você se esquece de você mesmo!

BÉRENGER
Estou cansado. Há muitos anos que me sinto cansado. Custa-me a suportar o peso do meu próprio corpo.

JEAN
Isso é neurastenia alcoólica, é a melancolia do beberrão...

BÉRENGER (continuando)
Eu sinto a cada instante o meu corpo, como se fosse de chumbo, ou como se carregasse um outro homem nas costas. Ainda não me habituei comigo mesmo. Eu não sei se eu sou eu. Mas basta beber um pouco, o fardo desaparece e eu me reconheço, eu me torno eu mesmo.
(...)"
(IONESCO, Eugène. O RINOCERONTE. p. 39.1976. São Paulo)

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