Fernandópolis, 27 de Junho
de 2019.
1 mês e dois dias após o
suicídio do amigo querido.
Carta ao menino de 23 anos,
11 meses e 355 dias completos.
Poucas
coisas me entristecem mais do que recordar o seu estado emocional neste
período. Nem poesia, álcool, cigarro, nada. Toda a sua dor ainda é viva. Tão
minha. Nossa, meu caro. Ela pulsa velozmente nessas veias desgastadas. Saiba
que não passará. Nem poesia, álcool, cigarro, nada... nada apagará. Permita à
covardia um lugar à mesa. Sem ela, você não lerá essas palavras. Você conhece as
possibilidades. Necessidade? Necessidades? Os seus semelhantes são âncoras. Não
se vá. Conflitante pensar em morte? Lembre-se que pensou. A morte dói, meu
caro. A falta de poesia dói. Palavras soltas doem. Sufocam. Sufocar. Verbo.
Dói, não é mesmo? Sufocar. Você sabe como dói. Lute. Luto. Luto... todos os
dias. Não existe poesia. A serventia desses desencontros sintáticos são o sopro
esperançoso de que você precisa. “A saudade dele está doendo em mim”, Nelson
Gonçalves. Orações porcamente elaboradas, as quais doem os ouvidos o apelo
suplicante ao “ésse”. Demência alcoólica é opção distante... vivência
desesperada. Angústia latino-americana calorosamente irracional. Intencional na
emotiva busca pelo desafogo dessa luta inglória que mais parece frase
propositalmente-indevidamente não-marcada por vírgula. Vírgulas: marque a vida
com vírgulas. Não faça de sua estadia nesse plano um grande parágrafo desconexo
grafado num falso papel branco emulado em uma tela. Não há razão. Nem vazão.
Nem poesia, álcool, cigarro. O reparo d’alma é a volta ao luto. Sentir.
Ressentir. (re)sentir. Pressentir é ilusão.