quarta-feira, 18 de março de 2020

CARTA


Fernandópolis, 27 de Junho de 2019.

1 mês e dois dias após o suicídio do amigo querido.

Carta ao menino de 23 anos, 11 meses e 355 dias completos.

Poucas coisas me entristecem mais do que recordar o seu estado emocional neste período. Nem poesia, álcool, cigarro, nada. Toda a sua dor ainda é viva. Tão minha. Nossa, meu caro. Ela pulsa velozmente nessas veias desgastadas. Saiba que não passará. Nem poesia, álcool, cigarro, nada... nada apagará. Permita à covardia um lugar à mesa. Sem ela, você não lerá essas palavras. Você conhece as possibilidades. Necessidade? Necessidades? Os seus semelhantes são âncoras. Não se vá. Conflitante pensar em morte? Lembre-se que pensou. A morte dói, meu caro. A falta de poesia dói. Palavras soltas doem. Sufocam. Sufocar. Verbo. Dói, não é mesmo? Sufocar. Você sabe como dói. Lute. Luto. Luto... todos os dias. Não existe poesia. A serventia desses desencontros sintáticos são o sopro esperançoso de que você precisa. “A saudade dele está doendo em mim”, Nelson Gonçalves. Orações porcamente elaboradas, as quais doem os ouvidos o apelo suplicante ao “ésse”. Demência alcoólica é opção distante... vivência desesperada. Angústia latino-americana calorosamente irracional. Intencional na emotiva busca pelo desafogo dessa luta inglória que mais parece frase propositalmente-indevidamente não-marcada por vírgula. Vírgulas: marque a vida com vírgulas. Não faça de sua estadia nesse plano um grande parágrafo desconexo grafado num falso papel branco emulado em uma tela. Não há razão. Nem vazão. Nem poesia, álcool, cigarro. O reparo d’alma é a volta ao luto. Sentir. Ressentir. (re)sentir. Pressentir é ilusão.