terça-feira, 31 de maio de 2016

DIÁRIO URBANO

Sangro palavras sofridas
embebidas em vinho e amor
e prazer. A noite em seu fervor
é covil de almas perdidas.

A mendigagem aflita
divide o último gole,
engana a fome da prole.
me sacio com a escrita.

A cidade imunda de razão
me arranca do peito a mais
melancólica emoção.

A manhã febril rouba os
sonhos dos desiludidos.
Nasceu o dia. Estamos fodidos. 

sábado, 28 de maio de 2016

"O RINOCERONTE", Eugene Ionesco

"(...)
BÉRENGER
Eu não gosto muito de álcool. E no entanto, se não bebo, não me sinto bem. É como se eu tivesse medo... Então bebo para não ter mais medo.

JEAN
Medo de quê?

BÉRENGER
Não sei bem como explicar. São umas angústias difíceis de definir. Não me sinto à vontade na vida... no meio das pessoas... então, recorro ao álcool. E isso me acalma, me descontrai, me faz esquecer.

JEAN
Você se esquece de você mesmo!

BÉRENGER
Estou cansado. Há muitos anos que me sinto cansado. Custa-me a suportar o peso do meu próprio corpo.

JEAN
Isso é neurastenia alcoólica, é a melancolia do beberrão...

BÉRENGER (continuando)
Eu sinto a cada instante o meu corpo, como se fosse de chumbo, ou como se carregasse um outro homem nas costas. Ainda não me habituei comigo mesmo. Eu não sei se eu sou eu. Mas basta beber um pouco, o fardo desaparece e eu me reconheço, eu me torno eu mesmo.
(...)"
(IONESCO, Eugène. O RINOCERONTE. p. 39.1976. São Paulo)

domingo, 15 de maio de 2016

REVELAÇÕES

Outro suor em seu corpo,
pesadelo indigesto esse meu.
Nem a poesia e a lira de Orfeu,
impedem-me de querer estar morto.

O passado trouxe a mim infeliz recado.
Roo sem dó as unhas recém roídas,
imaginando por quantas despedidas
seu sexo fora arrebatado.

Minhas pedras voam sem direção.
pois nem neste papel maldito
cabem meus lamentos sem razão.

Dance pela vida, meu bem-querer,
como se fosse ela o seu salão de festas.
O seu prazer fortuito, cabe a mim esquecer. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

PELO CORRIMÃO

Pelo corrimão
corre toda mão.
Corre sem regra
a mão negra, bem
como a amarela
escorre, esgoela.
Toda essa gente
socorrem-se no tal
corrimão errante.
Sob essas mãos de bem e mal,
quase sempre fiel,
a bússola aflante
não aponta o final.