Morreu o Haroldo! O da Mercedes, morreu. Cirrose. Durou o mês e morreu no sábado passado. Não vai mais comer o arroz e o feijão que trocara pela bebida por anos à fio. Bebeu, agora não bebe mais. Deixou a Mercedes, a mulher e um filho. Hoje o Haroldo nasceu para mim. Segunda-feira. Parto verbal, fora do hospital, em roda de botequim. Muito prazer, Haroldo. Descanse em paz.
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
ACEITAÇÃO
Na outra margem da vida
um poeta sem saída,
à beira do purgatório,
expurga outro verso inglório.
Traz consigo um bom amigo
arquiteto do jazigo-
abrigo. Envolta em fel
a ingratidão rasga o céu.
Feito punhal cruelmente
assassino, jovial.
Desfaz de mim e consente
com egoísmo e razões
liquidamente inflexíveis,
frutos de novas paixões.
um poeta sem saída,
à beira do purgatório,
expurga outro verso inglório.
Traz consigo um bom amigo
arquiteto do jazigo-
abrigo. Envolta em fel
a ingratidão rasga o céu.
Feito punhal cruelmente
assassino, jovial.
Desfaz de mim e consente
com egoísmo e razões
liquidamente inflexíveis,
frutos de novas paixões.
terça-feira, 1 de agosto de 2017
ENTRE MIRAGENS
Que as banalidades mundanas
não cabem num poema, nós
sabemos. Resta descobrir
se a banalidade poética
incorpora a vulgaridade
(des)humana. Prudente e insana.
Desatamos os nós a sós,
em versos que não fazem rir
nem chorar. Poesia hermética,
coirmã desta realidade.
não cabem num poema, nós
sabemos. Resta descobrir
se a banalidade poética
incorpora a vulgaridade
(des)humana. Prudente e insana.
Desatamos os nós a sós,
em versos que não fazem rir
nem chorar. Poesia hermética,
coirmã desta realidade.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
PRAGMATISMO TUPINIQUIM
Bate-bola, bate-pronto, bateu
na trave o bate-estaca semanal.
Quatro-um-quatro-um, variação-retranca
exagerada. Lateral desceu,
Cruzamento e conclusão teatral.
Zero a um. Time enclausurado por franca
prudência futebolisticamente
enfadonha. Covarde. Vencedora.
na trave o bate-estaca semanal.
Quatro-um-quatro-um, variação-retranca
exagerada. Lateral desceu,
Cruzamento e conclusão teatral.
Zero a um. Time enclausurado por franca
prudência futebolisticamente
enfadonha. Covarde. Vencedora.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
O ÚLTIMO POEMA, Schmidt
O ÚLTIMO POEMA
Chegará o dia do último poema
E o último poema sairá para o tempo tranquilo e natural,
sem nenhuma melancolia, como se fosse o primeiro nascido
Do espírito inquieto.
Chegará o dia do último poema
E o último poema será simples e modesto
Como se fosse um dos muitos da longa série inútil.
Será o derradeiro,
A última canção.
Sobre a voz que se foi e cantou
Será o último som interrompido, subitamente,
Quando tudo parecia indicar a vinda de outros sons,
E que eles caminhariam pela estrada
Como raparigas imaginárias enfeitadas de flores
Formando a grande música.
Será o último poema e sobre a voz estrangulada
O mármore gracioso e resistente.
Será o último poema e ninguém perceberá
Como se ele fosse uma rosa no seu último instante de plenitude,
Viva e perfeita,
Mas prestes a se desfazer ao primeiro sopro,
Prestes a estremecer no soluço final.
Será o último poema e ninguém sentirá
Que o silêncio absorverá para sempre a poesia poderosa,
E que esse poema é um poema
Nascido de um força perdida,
A última lágrima indiferente que desceu de olhos sem vida,
Luz que veio caminhando pelo espaço, originária de uma fonte
[morta.
O último poema será um poema perdido entre muitos poemas
Como uma flor perdida, como uma sorriso breve,
Como uma fisionomia desconhecida que um instante fixamos
[e que vai desaparecer
Para sempre na terra, na distância e na morte.
SCHMIDT, Augusto Frederico. O caminho do frio. p. 85-86. Livraria José Olympio Editora. São Paulo.
segunda-feira, 8 de maio de 2017
O BAIRRO DOS OBITUÁRIOS
No bairro dos Obituários todo dia era dia de finados. Ali, todos passaram pela vida como se ela fosse uma grande corrida.
Seu Carlos. 64 anos. 52 de trabalho.
O homem mais carrancudo do mundo. A pessoa mais acolhedora daquele cenário.
Enviuvado, deixou a filha e um canário.
Dona Dolores: mulher quase santa, viveu seu calvário com poucos amores.
Amou tanto um jovem seminarista, que não teve forças para chorar no dia da despedida.
Morreu suicidada. Grávida.
O coração de D. Lia se cansou de tanto apanhar: parou sem alarde às três da tarde.
Nem deixou a coitada terminar de se banhar. Dona Maria Ana: cinquentona divorciada, morreu a poucos metros de casa. Tão jovem e atropelada. No bairro dos Obituários não existiam feriados: nem natal, santo reis ou carnaval. Quase sempre o dia terminava em funeral. A morte se apegou àquele bairro feito um esfomeado que abraça ao prato de comida.
Ao menos alguém vivia naquele subúrbio sem qualquer receio: Dona Carmen. Ex-meretriz. Poetisa. A única pessoa por ali que não parecia infeliz. Passava despercebida, perfumando a rua com cheiro jasmim e de bebida. Sua presença em noites de boemia embelezava as tragédias do dia-a-dia. Dona do bairro, imperatriz dos versos menores. Dona Carmen costurava as palavras pelo fim e as soltava nos muros das casas sem receios maiores. Tudo tão pueril e inocente que dava vida nova àquele covil indecente. O Bairro dos Obituários se habituou tanto à morte quanto aos textos da senhora Carmen. Os versos da madame semeavam harmonia. Um fato porém, intrigava a ex-mulher da vida: por qual razão o seu reflexo nos espelhos não aparecia? A poetisa não entendia aquele fenômeno e sentia as carnes frias quando algum vira-lata lhe oferecia raivosas rosnadas durante seus passeios noturnos. Os pés prostituídos descansavam enfim ao portão do cemitério. Ali começavam os dias e findavam as noites de Dona Carmen. Sem que ela percebesse, como por magia ou mistério. Os muros daquele lugar lhe estavam sempre abertos e ali tinha paz. Agonia. Quanta ironia. Num desatino encontrava-se para dentro dos portões, prestes a encarar o seu destino... Na fria lápide, jazia: "AQUI DESCANSA CARMEN. BEBEU, FODEU E POETIZOU. UM BRINDE AO VERSO. PERVERSO. ". A dama retorna ao seu berço de pedra.
Ao menos alguém vivia naquele subúrbio sem qualquer receio: Dona Carmen. Ex-meretriz. Poetisa. A única pessoa por ali que não parecia infeliz. Passava despercebida, perfumando a rua com cheiro jasmim e de bebida. Sua presença em noites de boemia embelezava as tragédias do dia-a-dia. Dona do bairro, imperatriz dos versos menores. Dona Carmen costurava as palavras pelo fim e as soltava nos muros das casas sem receios maiores. Tudo tão pueril e inocente que dava vida nova àquele covil indecente. O Bairro dos Obituários se habituou tanto à morte quanto aos textos da senhora Carmen. Os versos da madame semeavam harmonia. Um fato porém, intrigava a ex-mulher da vida: por qual razão o seu reflexo nos espelhos não aparecia? A poetisa não entendia aquele fenômeno e sentia as carnes frias quando algum vira-lata lhe oferecia raivosas rosnadas durante seus passeios noturnos. Os pés prostituídos descansavam enfim ao portão do cemitério. Ali começavam os dias e findavam as noites de Dona Carmen. Sem que ela percebesse, como por magia ou mistério. Os muros daquele lugar lhe estavam sempre abertos e ali tinha paz. Agonia. Quanta ironia. Num desatino encontrava-se para dentro dos portões, prestes a encarar o seu destino... Na fria lápide, jazia: "AQUI DESCANSA CARMEN. BEBEU, FODEU E POETIZOU. UM BRINDE AO VERSO. PERVERSO. ". A dama retorna ao seu berço de pedra.
segunda-feira, 24 de abril de 2017
DELEITE POÉTICO
Não é um saco escrever poema?
Meter palavra num espaço
onde não coube o pensamento.
(Des)dizer para novamente
o fazer. Trágico dilema.
O verso preso pelo laço
da métrica. Paz. Pés: troqueu
ou jâmbico? Não esquecer:
Poesia é palavra. Quem disse?
Mallarmé! Esse verso míngua,
não há nada para escrever
Meter palavra num espaço
onde não coube o pensamento.
(Des)dizer para novamente
o fazer. Trágico dilema.
O verso preso pelo laço
da métrica. Paz. Pés: troqueu
ou jâmbico? Não esquecer:
Poesia é palavra. Quem disse?
Mallarmé! Esse verso míngua,
não há nada para escrever
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
FILHO
Sob o olhar cansado do final da noite,
o pivete acorda para outro dia de açoite.
O café tão escuro quanto a madrugada
espanta o sono e qualquer alma penada.
Sol, bala, suor, chicletes e alguma fé:
Trânsito parado. "Hoje não, vagabundo!"
O que você fez para nascer nesse mundo?
Onze horas, meio-dia e o asfalto queima o pé.
Uns trocados no bolso, fome na barriga,
um pão mais duro que o coração social.
"Some daqui, moleque! Volta pro sinal!".
Caem o sol e o moleque simultâneamente.
Vá descansar! Já não tem mais que trabalhar.
Outra vez a sociedade cala e consente.
o pivete acorda para outro dia de açoite.
O café tão escuro quanto a madrugada
espanta o sono e qualquer alma penada.
Sol, bala, suor, chicletes e alguma fé:
Trânsito parado. "Hoje não, vagabundo!"
O que você fez para nascer nesse mundo?
Onze horas, meio-dia e o asfalto queima o pé.
Uns trocados no bolso, fome na barriga,
um pão mais duro que o coração social.
"Some daqui, moleque! Volta pro sinal!".
Caem o sol e o moleque simultâneamente.
Vá descansar! Já não tem mais que trabalhar.
Outra vez a sociedade cala e consente.
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