segunda-feira, 22 de maio de 2017

O ÚLTIMO POEMA, Schmidt

O ÚLTIMO POEMA

Chegará o dia do último poema
E o último poema sairá para o tempo tranquilo e natural,
sem nenhuma melancolia, como se fosse o primeiro nascido
Do espírito inquieto.

Chegará o dia do último poema
E o último poema será simples e modesto
Como se fosse um dos muitos da longa série inútil.
Será o derradeiro,
A última canção.
Sobre a voz que se foi e cantou
Será o último som interrompido, subitamente,
Quando tudo parecia indicar a vinda de outros sons,
E que eles caminhariam pela estrada
Como raparigas imaginárias enfeitadas de flores
Formando a grande música.
Será o último poema e sobre a voz estrangulada
O mármore gracioso e resistente.
Será o último poema e ninguém perceberá
Como se ele fosse uma rosa no seu último instante de plenitude,
Viva e perfeita,
Mas prestes a se desfazer ao primeiro sopro,
Prestes a estremecer no soluço final.
Será o último poema e ninguém sentirá
Que o silêncio absorverá para sempre a poesia poderosa,
E que esse poema é um poema
Nascido de um força perdida,
A última lágrima indiferente que desceu de olhos sem vida,
Luz que veio caminhando pelo espaço, originária de uma fonte
[morta.
O último poema será um poema perdido entre muitos poemas
Como uma flor perdida, como uma sorriso breve,
Como uma fisionomia desconhecida que um instante fixamos
[e que vai desaparecer
Para sempre na terra, na distância e na morte. 
SCHMIDT, Augusto Frederico. O caminho do frio. p. 85-86. Livraria José Olympio Editora. São Paulo. 

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