No bairro dos Obituários todo dia era dia de finados. Ali, todos passaram pela vida como se ela fosse uma grande corrida.
Seu Carlos. 64 anos. 52 de trabalho.
O homem mais carrancudo do mundo. A pessoa mais acolhedora daquele cenário.
Enviuvado, deixou a filha e um canário.
Dona Dolores: mulher quase santa, viveu seu calvário com poucos amores.
Amou tanto um jovem seminarista, que não teve forças para chorar no dia da despedida.
Morreu suicidada. Grávida.
O coração de D. Lia se cansou de tanto apanhar: parou sem alarde às três da tarde.
Nem deixou a coitada terminar de se banhar. Dona Maria Ana: cinquentona divorciada, morreu a poucos metros de casa. Tão jovem e atropelada. No bairro dos Obituários não existiam feriados: nem natal, santo reis ou carnaval. Quase sempre o dia terminava em funeral. A morte se apegou àquele bairro feito um esfomeado que abraça ao prato de comida.
Ao menos alguém vivia naquele subúrbio sem qualquer receio: Dona Carmen. Ex-meretriz. Poetisa. A única pessoa por ali que não parecia infeliz. Passava despercebida, perfumando a rua com cheiro jasmim e de bebida. Sua presença em noites de boemia embelezava as tragédias do dia-a-dia. Dona do bairro, imperatriz dos versos menores. Dona Carmen costurava as palavras pelo fim e as soltava nos muros das casas sem receios maiores. Tudo tão pueril e inocente que dava vida nova àquele covil indecente. O Bairro dos Obituários se habituou tanto à morte quanto aos textos da senhora Carmen. Os versos da madame semeavam harmonia. Um fato porém, intrigava a ex-mulher da vida: por qual razão o seu reflexo nos espelhos não aparecia? A poetisa não entendia aquele fenômeno e sentia as carnes frias quando algum vira-lata lhe oferecia raivosas rosnadas durante seus passeios noturnos. Os pés prostituídos descansavam enfim ao portão do cemitério. Ali começavam os dias e findavam as noites de Dona Carmen. Sem que ela percebesse, como por magia ou mistério. Os muros daquele lugar lhe estavam sempre abertos e ali tinha paz. Agonia. Quanta ironia. Num desatino encontrava-se para dentro dos portões, prestes a encarar o seu destino... Na fria lápide, jazia: "AQUI DESCANSA CARMEN. BEBEU, FODEU E POETIZOU. UM BRINDE AO VERSO. PERVERSO. ". A dama retorna ao seu berço de pedra.
Ao menos alguém vivia naquele subúrbio sem qualquer receio: Dona Carmen. Ex-meretriz. Poetisa. A única pessoa por ali que não parecia infeliz. Passava despercebida, perfumando a rua com cheiro jasmim e de bebida. Sua presença em noites de boemia embelezava as tragédias do dia-a-dia. Dona do bairro, imperatriz dos versos menores. Dona Carmen costurava as palavras pelo fim e as soltava nos muros das casas sem receios maiores. Tudo tão pueril e inocente que dava vida nova àquele covil indecente. O Bairro dos Obituários se habituou tanto à morte quanto aos textos da senhora Carmen. Os versos da madame semeavam harmonia. Um fato porém, intrigava a ex-mulher da vida: por qual razão o seu reflexo nos espelhos não aparecia? A poetisa não entendia aquele fenômeno e sentia as carnes frias quando algum vira-lata lhe oferecia raivosas rosnadas durante seus passeios noturnos. Os pés prostituídos descansavam enfim ao portão do cemitério. Ali começavam os dias e findavam as noites de Dona Carmen. Sem que ela percebesse, como por magia ou mistério. Os muros daquele lugar lhe estavam sempre abertos e ali tinha paz. Agonia. Quanta ironia. Num desatino encontrava-se para dentro dos portões, prestes a encarar o seu destino... Na fria lápide, jazia: "AQUI DESCANSA CARMEN. BEBEU, FODEU E POETIZOU. UM BRINDE AO VERSO. PERVERSO. ". A dama retorna ao seu berço de pedra.
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