quarta-feira, 15 de julho de 2015

O 1994 DE AYRTON SENNA

Ímola, 1º de Maio de 1994.

O circo da Formula 1 amanhece numa espécie de ressaca fúnebre. A imagem da Simtek-Ford com o austríaco Roland Ratzenberger desfalecido no cockpit após o impacto no muro da curva Villeneuve esta muito viva na cabeça de todos os presentes.

É com a máxima de que "o show não pode parar" que os 25 carros alinhados no grid partem para mais um espetáculo. Senna é pole, com Schumacher logo atrás. Uma largada no mínimo assustadora graças ao acidente de Pedro Lamy e J.J Lehto e pela primeira vez temos um carro de segurança à frente dos monopostos da Formula 1.

O safety car volta para os boxes na quinta volta e a Williams-Renault de Senna rasga a reta principal do circuito. O arisco carro número 2 é seguido pela Benetton-Ford de Michael Schumacher.

Ayrton entra forte na chicane da Variante Baixa e abre a sétima volta da corrida com o alemão, até então líder do Mundial, logo atrás. A Tamburello se aproxima rapidamente e Senna segue o padrão de fazê-la com o pé embaixo, mas na metade da curva o pior acontece. A Williams se desgarra e feito um foguete descontrolado espatifasse no muro de concreto... O universo da Formula 1 prende a respiração ao ver que aquele final de semana infernal poderia terminar com mais uma tragédia.

Segundos intermináveis até o capacete amarelo movimentar-se no cockpit... Vê-se que Senna consegue liberar-se do cinto de segurança e com a ajuda dos fiscais de pista o brasileiro deixa o carro... para o alívio de todos.

Após sair do Centro Médico do Circuito, antes mesmo do final da corrida, vencida posteriormente por Schumacher, com Larini e Hakkinen completando o pódio, Ayrton dá uma curta entrevista, onde parece assustado e com a fala meio descompassada. Sid Watkins, médico da F-1 não confirma o brasileiro na prova seguinte, em Mônaco.

Nem precisava, Ayrton desembarca no Principado em busca da sétima vitória naquele circuito. Opondo-se a previsão de Watkins, Senna não só vai para a pista, como conquista a quarta pole-position na temporada 94. Na corrida porém, o brasileiro não consegue evitar um toque na traseira da Larousse de Erik Comas quando preparava-se para dar uma volta no francês e por isso é obrigado a voltar aos boxes para trocar o bico de sua Williams. Na volta à pista, uma caçada implacável ao amigo Berger rende a Senna o primeiro pódio na temporada, chegando em terceiro. Pela quarta vez no ano, Schumacher vence e agora tem 40 pontos contra apenas 4 do brasileiro.

Após um modesto sexto lugar na Espanha, em corrida vencida por Damon Hill, esse seguido por Schumacher, a primeira vitória de Senna na temporada viria no Canadá, com muita chuva e um pouco de sorte. O brasileiro vinha em segundo, quando Schumacher, líder da prova, derrapa com sua Benetton na saída da chicane que traz para a reta dos boxes e acerta o muro dos campeões. A vitória cai no colo de Senna, que apenas administra a vantagem para cima de Jean Alesi.

Após dois abandonos por rodadas, visualmente inexplicáveis, nas corridas seguintes, na França (vencida por Schumacher) e na Inglaterra (vencida por Damon Hill e onde o alemão foi desclassificado), Ayrton sobe ao pódio em Hocknheimring, na Alemanha em terceiro, após largar de um modesto sexto lugar, em uma corrida vencida pelo ferrarista Gerhard Berger e que contou com abandono de Schumacher, por problemas no motor Ford.

A imprensa internacional dá as primeiras manchetes insinuando que o piloto brasileiro não parece o mesmo após o grave acidente em Ímola. No Brasil, a revista Veja pega carona e entrevista fiscais de pista que atenderam Ayrton em San Marino, bem como uma das enfermeiras de plantão no Centro Médico do circuito, um neurologista, que explica os problemas da desaceleração brusca causada em acidentes como o de Senna, além do tricampeão mundial Nelson Piquet, que em um 1º de maio, em 1987, sofrera grave acidente na Tamburello com uma Williams. A manchete da matéria traz: "Piquet afirma: Senna morreu na Tamburello".

A possível redenção viria com a vitória na Bélgica. Ayrton, como ele mesmo dizia, fez "barba, cabelo e bigode" na prova, com vitória, pole-position e volta mais rápida. Ao seu lado com o segundo melhor tempo, Rubens Barrichello com a sua modesta Jordan-Hart. Schumacher, embora tenha completado a prova em segundo, é desclassificado por sua Benetton estar fora do regulamento. A FIA suspende o alemão em duas corridas. Duas semanas antes, em Hungaroring, na Hungria, Senna completara em quinto e assistira a mais uma festa do alemão.

O mundial encaminha-se para as suas cinco últimas provas, começando pelo Grande Prêmio da Itália: Schumacher, fora dessa corrida e também da seguinte, lidera o Mundial, com 66 pontos, Damon Hill aparece como vice-líder, com 51 pontos e Ayrton é o terceiro colocado, com 31 pontos.

Ambos pilotos da Williams tem a oportunidade que precisavam para alcançar Schumacher. Com o alemão fora das corridas seguintes, a disputa interna entre os pilotos da equipe inglesa mostraria quem brigaria pelo campeonato com o piloto da Benetton. Em Monza, Hill e Senna largam lado a lado, com o inglês surpreendentemente cravando a pole no final da qualificação. A perseguição dura até a 44ª volta. Ayrton encosta na Williams do companheiro na entrada da Curva Parabólica; o brasileiro vem por dentro, mas na metade da tomada da curva o carro balança para a direita e Senna perde o controle... As duas Williams vão para a caixa de brita, para o desespero de Frank Williams. A vitória cai no colo de Gerhard Berger. O ferrarista leva os torcedores italianos ao delírio e ultrapassa Senna na tabela do Mundial. 

As críticas ao brasileiro tornam-se pesadas. A revista Autosport estampa em sua capa, na segunda-feira pós corrida, a foto das Williams acidentadas com os dizeres: "Senna: Um perigo para o campeonato".

A próxima parada é o GP de Portugal, décima terceira etapa do ano. Já são mais de 4 meses desde o acidente em Ímola e alguns desafetos de Senna na imprensa internacional pedem para que Frank Williams não deixe o brasileiro pilotar, alegando que ele não tem condições sensoriais para tal. A Williams lança uma carta aberta afirmando que Ayrton é um tricampeão mundial, merece respeito e que ela cumprirá o contrato que tem com o brasileiro. Por fim a equipe inglesa diz que a decisão de correr ou não correr está nas mãos de Senna. 

No sábado, Senna responde aos críticos marcando a pole-position, tendo Damon Hill ao seu lado. Durante a corrida porém, Ayrton perde posição para Hill e também para Mika Hakkinen, completando a prova na terceira posição. Hill vence e encosta em Schumacher no Mundial. Com mais 4 pontos na conta, Senna reassume o terceiro lugar na classificação geral, deixando Berger em quarto.

Em Jerez de La Fronteira, o universo da F-1 acompanha o retorno de Schumacher e observa um Senna apreensivo nos boxes da Williams. Damon Hill, 5 pontos atrás do alemão, demonstra confiança para o final de semana, contudo "espera que ninguém o atrapalhe durante a prova". Schumacher marca a pole-position, com Hill em segundo e Senna em terceiro. As posições mantem-se assim até o final e faltando duas provas para o encerramento da temporada temos Schumacher com 76 pontos, Hill com 67 e Senna, definitivamente fora briga pelo tetracampeonato, com 39 pontos. 

No tradicional Circuito de Suzuka, Senna aparece mais animado. Tendo ganho seus três títulos no Japão, o brasileiro mostra-se confiante e afirma que trabalhará para vencer e quem sabe ajudar seu companheiro na briga pelo título. Na qualificação porém, Senna aparece atrás de Schumacher, Hill e da surpreendente Sauber-Mercedes do alemão Heinz-Harald Frentzen. Na largada o brasileiro cai para sétimo e pouco depois, no 13º giro, abandona com problemas na caixa de câmbio. Hill vence a prova, com Schumacher em segundo e Alesi em terceiro. 

O Campeonato será decido na Austrália. 

Durante a entrevista coletiva da sexta-feira, Ayrton choca os fãs do automobilismo e anuncia que aquela seria a sua última corrida. O tricampeão mostra-se impaciente com as perguntas dos jornalistas e conclui apenas que não tem mais condições de pilotar em monopostos.

Nos treinos, nada novo. Schumacher em primeiro, com Damon Hill em segundo. Senna parte da quinta posição em sua última prova. O alemão e o inglês travam duelo particular, que decidirá o Mundial, enquanto um pouco atrás, Ayrton disputa posição com as Jordan's de Barrichello e Irvine e depois com o ex-companheiro de McLaren, Mika Hakkinen. Na passagem da volta 32, Senna é o terceiro. 

Lá frente, Hill encosta em Schumacher e na volta 36 tenta ultrapassar o alemão, que por sua vez, joga sua Benetton contra a Williams do adversário. Ambos saem da prova e o título fica com Schumacher... Contudo, as atenções voltam-se para o carro #2 da Williams. Na última volta o braço já erguido do brasileiro; o capacete amarelo acompanha o movimento do carro, que sobe em cada zebra com se fosse a última... Uma fina garoa cai em Adelaide quando Ayrton Senna da Silva conquista sua 44ª vitória, a terceira do ano e a última de uma brilhante carreira.

No pódio da vitória, um Senna emocionado abraça o amigo Berger, segundo colocado. O ex-rival nos tempos de Formula 3, Martin Brundle, cumprimenta o brasileiro e os três celebram no pódio. Na chegada ao Brasil, Senna recebe das mãos do presidente Itamar Franco a Medalha da Ordem Cruzeiro do Sul. Depois, já em São Paulo, Ayrton desfila em carro aberto, onde é saudado por quase 300 mil pessoas. 

Termina aqui a carreira do tricampeão.

Números de Ayrton Senna em 94: 

- 49 pontos (3º lugar no Mundial - Campeão Mundial de Construtores com a Williams)
- 3 vitórias (Canadá, Bélgica e Austrália)
- 6 pole-positions (em negrito na tabela)
- 7 pódios (3 V. e 4 Terceiros)



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